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Vida de Bento de Espinosa
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Descrição
João Colerus, ministro luterano em Haia que viveu na mesma casa onde Espinosa habitara nos seus últimos anos, compõe uma biografia breve mas fiel, baseada em documentos autênticos e no testemunho de pessoas que ainda o conheceram pessoalmente. Bento de Espinosa (Baruch Spinoza), nascido em Amesterdão a 24 de Novembro de 1632, era filho de judeus portugueses abastados e honrados, comerciantes na cidade. A família vivia numa boa casa junto à sinagoga portuguesa. Desde criança revelou espírito vivo, imaginação fértil e inteligência penetrante. Aprendeu primeiro latim com um mestre alemão e depois aperfeiçoou-se com Franciscus van den Enden, médico e professor que, além do latim, transmitia ideias perigosas (acusado de plantar sementes de ateísmo nos alunos). Espinosa enamorou-se da filha de van den Enden, mulher de grande espírito e capacidade, mas perdeu-a para um rival, Kerkering, que a desposou após converter-se ao catolicismo. Após dominar o latim, dedicou-se à Teologia durante alguns anos, mas o seu espírito crítico e a inclinação para as causas naturais levaram-no a abandonar esse estudo e a voltar-se para a Física e a Filosofia. As obras de Descartes entusiasmaram-no, sobretudo pela máxima de só aceitar como verdadeiro aquilo que fosse provado por boas razões. Esta exigência racional fê-lo questionar os princípios dos rabinos, afastando-se progressivamente da sinagoga. Os judeus, irritados, ofereceram-lhe uma pensão anual de mil florins para que permanecesse entre eles e comparecesse ocasionalmente às assembleias, mas Espinosa recusou, declarando que não era hipócrita e que buscava apenas a verdade. A ruptura culminou na excomunhão formal pronunciada pelo rabino Chacham Abuabh. Houve mesmo um atentado: ao sair da sinagoga, um judeu tentou apunhalá-lo, ferindo apenas as roupas (Espinosa guardou o sobretudo rasgado como recordação). Sentindo-se inseguro em Amesterdão, retirou-se para lugares mais tranquilos, vivendo modestamente como polidor de lentes ópticas. Jamais abraçou o cristianismo nem recebeu o baptismo, embora mantivesse conversas com menonitas e outras seitas cristãs sem se filiar a nenhuma. Colerus descreve o carácter de Espinosa como cortês, simples e desinteressado de honras e riquezas. Viveu os últimos anos em Haia, na casa do pintor Van der Spyck (hospedeiro de Colerus), onde morreu a 21 de Fevereiro de 1677, com 44 anos, provavelmente de tuberculose. Foi enterrado a 25 do mesmo mês no cemitério cristão de Haia. O sobrinho Daniel Carceris reclamou parte da herança. A biografia destaca a coerência de Espinosa entre as suas ideias e a sua vida austera, a sua independência face a autoridades religiosas e o seu compromisso exclusivo com a busca racional da verdade, pintando o retrato de um homem que, apesar da excomunhão e dos perigos, manteve hábitos decentes, modéstia e serenidade até ao fim. O texto de Colerus, escrito pouco depois da morte do filósofo, constitui uma das fontes mais antigas e diretas sobre a sua existência.
Detalhes
AUTOR:
João Colerus
EDITORA:
Edições Coimbra (editora)
Obs./ Outros dados:
Nenhum detalhe adicional fornecido.
ANO DA EDIÇÃO:
1934
Nº PÁGINAS:
83