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Terra sem música

Descrição

O romance centra-se na figura de Pitch, uma personagem de ficção que concebe a vida como uma composição musical harmoniosa, coerente e proporcionada, semelhante a uma sinfonia. Esta visão metaforiza a busca por sentido, ordem e beleza numa existência marcada pela dissonância, pela incomunicabilidade e pela melancolia de um mundo desprovido de verdadeira música. As personagens principais, como Antónia e Cristina, movem-se num espaço narrativo fragmentado e reflexivo, onde a realidade se entrelaça com a ficção e a criação literária. Antónia, em particular, assume um papel ativo na narração e na reflexão, reescrevendo ou reinterpretando histórias clássicas (como a de Barba Azul, adaptada ironicamente aos tempos modernos, com elementos de poder económico, monopólios e curiosidade feminina) e questionando os papéis e representações das mulheres na literatura e na sociedade. O título Terra sem Música ganha uma dimensão simbólica forte: evoca uma canção (Land Without Music) que Antónia e Cristina escutam, estabelecendo um paralelo com Portugal — uma terra de austeridade, descontentamento social, impostos elevados, mão armada e ausência de harmonia cultural ou vital sob o contexto da época. A “terra sem música” representa a desolação, o silêncio criativo e a alienação, contrastando com a aspiração de Pitch a uma existência orquestrada e plena. A narrativa adopta uma estrutura lúdica e meta literária: explora o ato de escrever, a construção de personagens e a relação entre autor, narrador e ficção. Inclui diálogos, reflexões sobre o processo criativo e uma dança final quase macabra, onde Pitch e Cristina valsam ao ritmo de Land Without Music, num cenário de cacos de cristal, névoa, sangue e gargalhadas, simbolizando desespero, morte simbólica e a impossibilidade de plena harmonia. Antónia observa ou participa nesta cena, num grito mudo que sublinha a incomunicabilidade. No essencial, o livro tece temas como a busca de sentido na vida através da arte, a crítica social e política (nomeadamente ao provincialismo e rigidez da sociedade portuguesa da época), as relações humanas marcadas por tensão e incompreensão, e o papel das mulheres que observam, questionam e tentam reescrever os seus próprios destinos. Fernanda Botelho constrói uma prosa irónica, fragmentada e intelectual, onde a música (ou a sua ausência) serve de fio condutor para uma reflexão profunda sobre a existência, a criação e a melancolia. O romance, com a sua densidade reflexiva e experimental, convida o leitor a uma experiência mais contemplativa do que linear, centrada nas vozes interiores e nas metáforas musicais e geométricas que estruturam as emoções e relações das personagens.

Detalhes

AUTOR:
Fernanda Botelho
EDITORA:
Edições Contexto
Obs./ Outros dados:
Nenhum detalhe adicional fornecido.
ANO DA EDIÇÃO:
1991
Nº PÁGINAS:
271