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CÂNTICO FINAL
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Descrição
Cântico Final, de Vergílio Ferreira, é um romance introspectivo e denso que acompanha o pintor Mário Gonçalves nos seus últimos meses de vida, confrontado com uma doença terminal (cancro). O protagonista, que cresceu numa aldeia da serra, leccionou desenho na cidade e viveu em Lisboa, regressa à terra natal para enfrentar a finitude e buscar sentido à existência. A narrativa alterna entre o presente (em itálico) e o passado (em romano), tecendo memórias e reflexões num fluxo que mistura monólogo interior, diálogos e evocações. Em Lisboa, Mário participa de serões na casa do amigo Cipriano, onde discute com um círculo de intelectuais e artistas temas como a arte, o amor, a morte, a ausência de Deus e o vazio de valores num mundo secularizado. Aí conhece Elsa, a bailarina que se torna figura central da sua paixão: o seu corpo em dança encarna instantes de beleza efémera, limite e quase divindade, despertando nele o desejo de permanência através do erotismo e da criação. De regresso à aldeia, doente, Mário dedica-se ao restauro de uma capela abandonada (a Capela da Senhora da Noite), comprada a um antigo conhecido. Nesse espaço isolado, no cimo de um monte, pinta afrescos e, sobretudo, o rosto da Virgem, inspirado em Elsa — transfigurando a mulher amada num ícone que funde o sagrado profano com a arte. Este ato criador representa o culminar da sua busca: só através da pintura, como gesto de liberdade e redenção humana, é possível vencer a precariedade do corpo, a solidão e a morte, ressignificando o lugar deixado vago pelo divino. O romance explora obsessivamente a tensão entre finitude e permanência. Mário confronta a inverosimilhança da morte (iniciada pela perda dos pais), experimenta caminhos como o amor erótico (com Elsa e outras figuras como Cidália, que lhe dá um filho que não chega a conhecer plenamente) e a procriação, mas conclui que apenas a arte oferece uma forma de absoluto humano. As discussões com personagens como Rebelo, Ramiro, Guida ou Matos revelam visões antagónicas sobre a criação, o consumo e o sentido da vida, enriquecendo a reflexão sem resolver dogmaticamente as questões. No recolhimento final, entre a montanha, o silêncio e a capela, Mário alcança uma espécie de canto do cisne: a obra pictórica como triunfo parcial sobre o efémero, unindo origem rural, memória, desejo e transcendência laica. O livro fecha circularmente no espaço da aldeia, afirmando a arte como o verdadeiro cântico final do humano perante o mistério da existência. É uma meditação intensa sobre religião (ou a sua ausência), arte e procura de sentido, escrita com rigor e profundidade filosófica, fiel ao estilo reflexivo de Vergílio Ferreira.
Detalhes
AUTOR:
Vergílio Ferreira
EDITORA:
Edições Portugália (Portugalia)
TEMÁTICA:
Nenhum detalhe adicional fornecido.
ANO DA EDIÇÃO:
1966
Nº PÁGINAS:
247