Textos literários sátiras e outros poemas Nicolau Tolentino
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Descrição
A obra centra-se na sátira tolentiniana como género principal, caracterizada por um discurso marcadamente amoral: as personagens e os factos não são julgados como bons ou maus em si mesmos, mas surgem tal como acontecem, moldados pelas situações concretas. Não se encontra aqui o moralismo típico da Arcádia, onde a arte visava explicitamente corrigir os costumes; em Tolentino, predomina antes uma observação lúcida e descomprometida da realidade social portuguesa da segunda metade do século XVIII e inícios do XIX. Os poemas seleccionados retratam, com humor, ironia e precisão coloquial, tipos e defeitos da sociedade setecentista: o nobre enfatuado e ignorante, o clérigo lascivo ou supersticioso, o peralta namoradeiro e vadio, a mulher sedutora, o jogador compulsivo, o médico incompetente, os velhos que dissimulam a decadência física, os poetas gongóricos ou neoclássicos excessivos, entre outros. Temas recorrentes como o parecer versus o ser, o ócio, o tédio, o amor, o tempo e a morte percorrem os textos, frequentemente em forma de narrativas ou micro-narrativas lírico-dramáticas (exemplos como “O Velho”, “A Função”, “Os Amantes” ou “A Quixotada” ilustram a extensão e o impacto de algumas sátiras mais longas). A linguagem fluida, próxima do oral e do quotidiano, reforça o realismo lírico e o carácter observacional do eu-poético, que se move como um pícaro pela cidade, registando os vícios e contradições humanas sem rigidez moralizante. A selecção inclui ainda outros poemas que complementam o universo satírico, evidenciando a versatilidade de Tolentino entre o lúdico e o lúcido. No conjunto, o livro propõe uma leitura didáctica e analítica da sátira tolentiniana como forma de desconstrução dos modelos comportamentais e morais da época, através de um riso que oscila entre a descontração, a compreensão e a melancolia, destacando a sua relevância na transição do Barroco para a Arcádia e para manifestações pré-românticas. É, assim, uma introdução acessível e rigorosa à obra de um dos mais penetrantes observadores da sociedade portuguesa do seu tempo.