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O processo de Jesus

Descrição

A peça, dividida em dois atos e um entreato, centra-se num grupo familiar judaico de atores que, noite após noite, encena um julgamento de Jesus de Nazaré, percorrendo teatros do mundo. O enfoque inicial é estritamente jurídico: pretende determinar, através de um processo simulado, se Jesus merece absolvição ou condenação, com base em razões históricas, políticas e legais. Os quatro juízes principais são Elia (que preside), a esposa Rebecca, a filha Sara (viúva) e Davide. Os papéis de defesa — de Caifás, de Pilatos e do próprio Jesus — são sorteados todas as noites, enquanto uma quinta pessoa assume a acusação. Durante a representação, Sara recusa-se a defender Pilatos (o papel que lhe calhou) e, perante o impasse, um espectador é convidado a ocupar o lugar vago. Cansada da repetição mecânica do ritual, Sara propõe inovar, chamando a depor outras figuras bíblicas como testemunhas: Maria Madalena, Maria (mãe de Jesus), José, Judas e outras. Esta mudança desloca gradualmente o foco do plano jurídico para o humano e emocional. No entreato revela-se a tensão familiar: Sara é viúva porque Davide, anos antes, entregou o seu marido Daniel aos nazis, acusando-o de ser judeu — um trauma que marca as relações entre os personagens e ecoa os horrores da perseguição recente. No segundo ato, o público (representado por atores) intervém diretamente no palco. Personagens como uma prostituta, um sacerdote, um ex-seminarista, um cego e, especialmente, uma senhora da limpeza sobem ao palco para expressar as suas visões pessoais sobre Jesus. O debate torna-se cada vez mais íntimo e emotivo, transcendendo o julgamento histórico de Jesus para questionar o próprio cristianismo e o seu legado. O clímax emocional surge com o testemunho da senhora da limpeza, que afirma que, sem a figura daquele homem cheio de amor, à gente simples não resta nada. A obra explora, assim, os conflitos entre lei e misericórdia, justiça e verdade, culpa coletiva e redenção individual, num contexto marcado pela memória da II Guerra Mundial e pelas tensões entre judaísmo e cristianismo, sem se limitar a uma exegese bíblica ou teológica. O processo transforma-se num espelho dos dramas interiores dos intervenientes e do próprio público.

Detalhes

AUTOR:
Diego Fabbri
EDITORA:
Edições Aster
Obs./ Outros dados:
Nenhum detalhe adicional fornecido.
ANO DA EDIÇÃO:
19651
Nº PÁGINAS:
131