Auto dos danados
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Descrição
Imagina uma casa grande e antiga no Alentejo, em setembro de 1975, quando Portugal ainda tremia com as mudanças do 25 de Abril e a velha ordem se desfazia como papel molhado. Lá dentro, um patriarca está a morrer, muito devagar, entre lençóis que cheiram a doença e a tempo parado. À volta dele, uma família inteira — filhos, noras, genros, uma filha solteira com síndrome de Down, criados antigos — transforma a agonia do velho numa espécie de teatro grotesco e feroz. Todos querem a mesma coisa: a herança. Mas ninguém diz isso em voz alta. Em vez disso, falam, falam muito, num coro de vozes que se atropelam, se interrompem, se insultam por dentro. Cada um tem a sua versão do que aconteceu, do que sofreu, do que odeia. E o que sai é um retrato cru, sem maquilhagem, de gente mesquinha, traiçoeira, patética, às vezes até comovente na sua miséria. António Lobo Antunes pega nesta família e corta-a em fatias finíssimas. Cada capítulo é uma cabeça diferente, um olhar torto sobre o mesmo cadáver que vai arrefecendo. Não há narrador simpático que nos guie pela mão; somos atirados para dentro das cabeças, ouvimos os pensamentos que as pessoas normais guardam trancados a sete chaves. É feio, é sujo, é hilariante de tão cruel, é triste até doer.